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O graveto que virou perseguidor
Como boa ouvinte de histórias, que sou, ou que me transformei por força da profissão, aprendi que de tudo se tira um resultado. E mais uma vez estava certa, naquele dia. Numa das minhas visitas a minha filha, na casa dela, num agradável almoço, deliciosamente preparado pelas moradoras da casa, ouvi uma historia muito engraçada. Era assim......Elas foram acampar, num determinado feriado, numa ilha. Tinham que fazer uma espécie de trilha para poder chegar ao destino final, onde acampariam. Estavam em três, mas nenhuma delas queria ser a ultima da fila, já que nesta tal trilha tinham que andar em fila. Depois de muita discussão para decidir quem ficava por último, usaram a altura como ponto para definir a ordem da fila. Minha filha era a menor e teve que ocupar o último lugar na fila. Não deve ter gostado muito, mas acatou, foi de comum acordo a tal decisão. Daquelas coisas que a gente não concorda e não gosta, mas como se participou da decisão, acata-se. Ela estava carregando um graveto no ombro, ele seria usado para lenha da fogueira noturna do acampamento delas. Estavam caminhando na areia. A certa altura da caminhada, já o cansaço e o medo, deveriam estar produzindo seus efeitos, ela comunica às outras que estava ouvindo um barulho atrás dela, bem perto, que pareciam passos, que corressem, pois estavam sendo perseguidas e bem de perto. Correram muito e sem olhar para trás. Quando já depois de longa corrida, cansadas, minha filha diz não estar mais ouvindo o barulho dos passos. Pararam. Exaustas! Qual não foi a surpresa delas ao descobrirem que o tal perseguidor implacável, era nada mais nada menos que o barulho do graveto, que minha filha levava ao ombro e que arrastado ao tocar a areia produzia um ruído, que de fato estava bem perto, e que também era verdade as perseguia. No mínimo o graveto e minha filha devem ter sido muito xingados. Ele, o graveto, depois como castigo foi para a fogueira, o mesmo, para minha felicidade de mãe, não aconteceu com minha filha, foi gentilmente perdoada. Ficou a lembrança de uma boa historia, e muitas risadas depois.
Bom, eu ouvi e fiquei pensando naquela historia. Quantas vezes a gente não faz isto na vida? Devemos fazer longas caminhadas nas areias da vida, carregando gravetos, que ao contato com o chão produzem sons assustadores, corremos, cansados, mas sem parar e olhar para ver de onde vem o som. Agimos quase sempre em função da emoção sentida, e não examinamos a fonte e o fato verdadeiro de procedência. Na verdade na maior parte das vezes, não agimos, apenas reagimos. Dificilmente paramos para saber a procedência das nossas emoções, mas agimos instintivamente pela emoção sentida. Quanta confusão devemos passar inutilmente. Será que por isto estamos sempre tão cansados e desgastados, de tanta reação? Nenhuma ou muito pouca atitude de olhar a fonte do sentimento. Era um simples graveto.....e nós? Quantos gravetos carregamos e quanto susto tomamos com nossos próprios fardos. O graveto era necessário, mas o susto não. Elas esqueceram que carregavam algo. Nós também nem lembramos que carregamos algo dentro de nós, e muitos “algos”.Em determinadas horas, numa situação de vida qualquer agimos sem lembrar que estamos provavelmente reagindo, segundo nossos gravetos, mas com certeza a situação de fato, não é aquela que nos amedronta tanto.
Na caminhada da vida, nos distraímos com a paisagem, com os outros, nos embolamos com os fatos e esquecemos nossas coisas, nossa bagagem interna, que fica apenas como carga, não a usamos como recurso numa noite escura como seria adequado e correto, como era o destino do graveto. Na vida vamos ter várias noites escuras, frias e vamos precisar dos gravetos trazidos, para aquecimento e luz, mas esquecidos nos ombros se tornam fardos pesados e assustadores às vezes. Engraçado a gente recolheu o graveto com propósito certo, e ao colocá-lo no ombro e partir, o esquecemos ali, como algo pesado e inútil, e até assustador, porquê? Depois, como na historia das meninas, provavelmente vá para a fogueira, com raiva do transtorno causado. Resultado? Sofrimento, tempo perdido, feridas novas, o que seria uma caminhada tranqüila, pode se transformar, numa correria assustadora. Por muito pouco o fim de semana não se transforma num caos completo. Já pensaram que nossas vidas podem estar transformadas num caos total, porque simplesmente a gente pode estar transformando nossos recursos internos, nossos gravetos, trazidos para auxilio, em fardos assustadores e pesados demais. E ai, uma vida jogada fora, ou vivida com exaustão, por simples desconhecimento dos nossos sentimentos, e emoções.
Carregar algo inutilmente, caminhar sem avaliar a bagagem, parece não ser uma atitude muito sensata na vida. Uma atitude psicológica de alienação. E que neste contexto atual de mundo, pelo próprio padrão vivido, de se ter coisas compulsivamente e estas coisas serem prioridades na caminhada da vida, está sustentando o distanciamento de nossos gravetos protetores. Acumulados, ao longo de várias caminhadas, na trajetória eterna do ser humano, como recursos tão importantes e sábios, se analisados, consultados e usados devidamente, estão sendo desperdiçados, queimados, desprezados, como nosso graveto da historia das meninas distraídas.
No caso das meninas, tudo bem, o objetivo era esse mesmo. Se distrair, ficar alheia, se ocupar com a paisagem, estavam lá para isto. No nosso caso, não. Não estamos na vida à passeio, ou para nos distrairmos. Viver é para ser bom, gostoso, alegre mas sem distração dos fatos ao redor, das atitudes tomadas, dos gravetos que trazemos no ombro. Isso pode dar muita confusão e levarmos muitos sustos com as conseqüências deste esquecimento.
O fantasma do desconhecido, além de assustar muito, nos torna refém dele. Se corrermos assustados, sem examinar a procedência ou a fonte do susto, vamos sempre sermos reativos aos fatos, eles, os fatos, estarão sempre no comando de nossas atitudes, não seremos nós agindo no meio, exercendo nosso poder de donos de nossas vidas e comandos, mas meros marionetes de algo muito feio que nos persegue e amedronta, e que pode ser um simples graveto de grande utilidade num dado momento de necessidade extrema, como o nosso “gravetozinho” seria num momento de escuridão e frio. Bagagem desconhecida, problemas à vista! Inocentes gravetos podem se tornar perigosos perseguidores!
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