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O JOGO DOS 7 ERROS
Vocês se lembram daquele jogo, meio antigo, que vinha normalmente nas revistas e jornais, na última página? Eram duas figuras aparentemente iguais, e a brincadeira era descobrir as diferenças. Ao copiar o quadro o desenhista tinha cometido sete erros, tornando os desenhos diferentes em pequenos detalhes. Era um passatempo, um jogo de distração e ao mesmo tempo testava nossa atenção.
Pois é! Hoje no consultório, tenho a sensação que estamos brincando de descobrir os sete erros no outro. Parece que as pessoas brincam o tempo todo deste jogo na vida. A comparação é sempre conosco. O desenho certo somos nós, e é no outro que temos que descobrir os sete erros. Na revista isto era uma brincadeira, uma distração. Na vida este jogo é perigoso. Perdemos o tempo de viver, perdemos a chance de observar o outro como realmente ele é. E perdemos tempo, portanto, em algo infrutífero. Não estamos nos divertindo, pois, a diferença do outro passa a ser um erro para mim.
Tenho observado este movimento aumentando. Parece que nós decidimos sair pelo mundo com um bloquinho nas mãos descobrindo os sete erros em todo mundo. Julgamentos, críticas, comparações, classificações, enquadramentos e rotulações, e o que é pior... segundo os nossos critérios de verdade. Que brincadeira é esta? Enquanto procuramos o erro não vemos a diferença que poderia completar o meu jogo. E porque a diferença é erro? Porque estamos nos tornando tão rígidos e severos com o outro? A tecnologia muito adiantada pode nos influenciar na busca de padrões de qualidade cada vez mais exigentes. Mas aí nós pobres humanos mortais ficamos distante disto. Porque somos perfeitos nas nossas imperfeições. Funcionamos harmonicamente desde que observadas e respeitadas as nossas possibilidades. Porque a busca do erro no outro? Parece-me sempre que jogamos, competimos, não vivemos com cooperação na superação de nossos limites e dificuldades.
A proposta terapêutica seria o inverso do jogo dos sete erros. O jogo dos sete acertos. E se, imaginariamente, carregássemos um bloquinho, saindo por aí procurando no outro a uma qualidade? O que ele tem que me encanta? O que ele tem que eu não tenho e que acho maravilhoso como traço e maneira de ser e viver? O ser humano é algo encantado e mágico, mas de repente, não sei bem porque, passou a ser alvo de ataque e represália pelo próprio ser humano. É como se fosse uma doença auto imune que ataca as células do próprio corpo num processo de destruição e morte. O que houve conosco?
Os relacionamentos viraram guerras. Vejo parceiros, que se uniram pelo amor, se perdendo na busca dos erros e defeitos do outro. Nas sessões de terapia, passam o tempo todo falando do quanto o parceiro é errado. Mas aquilo que estão chamando de erro é apenas o jeito do outro ser, é aquilo que é diferente dele, apenas isto. Talvez desperte nele sentimentos difíceis de serem lidados, ou até difíceis de serem percebidos como seu. Não vejo mais aquele movimento de parceria com a dificuldade do outro, para entender e ajudar na sua superação. Afinal para que queremos um parceiro de vida? Para tornar a viagem mais agradável e fácil, ou para ter alguém que a todo momento nos aponte as nossas dificuldades fazendo delas a razão da viagem? E o encantamento? Porque o outro não é como eu, ele está errado? A busca dos sete erros se tornou o objetivo da viagem? A brincadeira pode, neste caso, terminar em muita dor para ambos. E ainda, a viagem terminar de modo desastroso no meio do caminho. A maneira de viver ficou competitiva, parece-me a disputa de um importante campeonato, onde o premio final será a felicidade. Felicidade esta que só poderá ser desfrutada se sozinho. Porque se destruo meu parceiro tenho a vitória, mas para desfrutá-la com quem? A importância do viver parece que a estamos concentrando em estar certo e não em ser feliz do jeito que podemos ser. A caminhada com gentileza, sem a preocupação dos acertos. Não estamos numa competição, mas numa cooperativa onde o resultado final ´a felicidade.
Quando era menina (faz muito tempo), me lembro que ia ao mercado da cidade fazer compras para minha mãe, e eu ia de bicicleta. Levava no guidão a sacola, e ela era retornável. De repente, os mercados se tornaram super e hiper, e as sacolas descartáveis. Acho que isto aconteceu com a gente também: tornamos-nos descartáveis. Ficou tão fácil nos descartarmos do parceiro. A entrada do “fica” nos relacionamentos, a tecnologia avançada, o crescimento do mundo, tudo isto pode vir cooperando no descarte e uso rápido do ser. Onde vamos chegar, e o pior, de que maneira? Um grande grupo de pessoas solitárias, doentes e perdidas. Todos sabendo exatamente quais os sete erros do outro. De que vale isto?
Gosto de pensar na gente como uma caixinha daqueles bombons sortidos. Toda vez que vamos às compras, levamos uma caixa daquela para casa. Sabemos que vai ter um bombom que ninguém gosta, e ele vai sobrar. Vai ficar lá, rodando de um lado para o outro. Mas o interessante é que na próxima compra nós não deixamos de levar a mesma caixa outra vez. E aquele bombom que ninguém come vai sobrar de novo. Mais interessante ainda, é que o bombom que sobra na sua casa pode ser que na do seu amigo seja o predileto, e assim sucessivamente. Somos como esta caixa de bombons sortidos. Temos alguns pedaços que não são muito gostosos, mas que podem de repente ser apreciados por outro. O bombom está errado? Foi um erro de fabricação? Não. Apenas não agradou ali. Pense nisto: na nossa grande bagagem de traços de caráter, de jeito de ser como uma caixinha de bombons sortidos. São pedaços de um mesmo ser, não estão errados. Fazem parte da grande obra do Museu do Universo. Somos obras primas de um Grande Mestre! Ninguém está errado, este Mestre não comete erros, mas produz obras muito diferenciadas em seus detalhes de ser. Vamos então procurar as diferenças destas fantásticas obras e aprendermos a somar os detalhes? Um bom divertimento a todos.
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